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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
  O Careta desceu o Morro do Cemitério no Carnaval
 
     Era dia de Carnaval em Batalha. O ano não importa, mas era a década de 40. Período por excelência de uma geração embalada pela efervescência de nossos maiores músicos de todos os tempos.
     O martelo do relógio da matriz acabava de bater duas vezes no beiço magoado do velho sino. O sol rachava o ar quem quisesse ver era uma mistura trêmula de um forte clarão na linha do horizonte chega "cegava" quem demorasse olhando.
    Descendo a ladeira do cemitério sob fortes pisadas o Careta vestido de padre, com butina e a batina sobre uma velha calça de caque; os braços encobertos e ainda umas luvas emprestadas para dificultar o reconhecimento. Tinha que ser assim, senão perdia a graça.
    Aquela figura metia medo  até em gente grande. Passava pelo Riacho da Usina seguida das crianças como formigas no seu rastro rumo às quadras que resumiam as principais casas por onde começou o povoado chamado no início de freguesia.
     O folião carregava consigo um chicote de embira trançada servindo para assustar os mais afoitos. Não falava, parecia urrar, zurrar, rinchar. Qualquer coisa que disfarçasse a voz humana. Precisava ser forte e disposto a enfrentar a brincadeira sob um sol de quarenta graus na sombra.
    Alguns foliões tratavam de preservar a figura, símbolo de nosso Carnaval. Verdadeiros guarda-costas da brincadeira. O mais difícil era garantir a fuga numa direção segura para logo depois aparecer antes que alguém sentisse falta daquele jovem descaracterizado. Era um alvoroço pra saber quem iria descobrir primeiro:
__ Eu acho que é o Josa Castro! Alguém o viu por aí?
__ É nada. Vai ver ele está tomando um trago escondido em sua mercearia.
__ Seu Álvaro Vaz não é porque esse Careta é muito magro. Também não é o Dico Lopes. A gente saberia logo pelo andar. Muito menos o Zé Cândido, pelo tamanho da criatura. Mesmo sendo dos mais travessos e inteligentes. Turma boa aquela!
__ É...acho que esse ano ninguém descobre!
     E assim continuava a disputa e a brincadeira cada vez mais interessante. A turma da proteção já se preparava para "despistar" e garantir a escapada.
    Acreditem se quiser, mas houve beata capaz de jurar ser a alma do Padre Guimarães em pessoa. Talvez algum daqueles frades lá da Serra de Tianguá que depois de morto veio pregar uma peça no povo mundano que gosta de Carnaval. Era só o que faltava!
     Fabiano comandava os músicos ao som do Zé Pereira e sua marchinha Até o sol raiá. Aquilo sim é que era Carnaval!
    Tudo era feito no depósito do Sr. Edson da Costa Araújo, Seu Sansão, onde hoje é a bodega de D. Luiza do Clarindo. Zé Cândido Melo, Josa e Nilson Castro, Dico Lopes e mais alguns jovens da época traziam barro de louça para moldar as máscaras feitas com papel de cimento pregado com grude de goma preparado sob o fogo de alguma lamparina ou pavio de cera de abelha. Depois era preciso costurar pedaço de pano pelas bordas da máscara rústica para que os cabelos do escolhido para sair mascarado naquele ano não ficassem à mostra.
     Ficou o dito pelo não dito. Naquele ano o Careta não foi descoberto. Outro ano o Dico Lopes saiu de Careta montado num cavalo. Teve alguém esperto que logo desconfiou, mas o saudoso folião saiu em disparada com seu cavalo antes que se confirmasse.
     Eu sei quem saiu naquele ano; quem me contou pediu segredo pelas almas dos que já se foram. Se você se interessou em saber então descubra. Talvez precise de uma gincana cultural. Quem sabe eu lhe passe alguma pista. Mas o que eu queria mesmo era ter saído em disparada rumo ao Riacho Grande com  toda aquela criançada correndo, correndo e cantando o Zé Pereira:  Pá parará...pá parará... pá pá pá pá pá. Olhe o Careta! Olhe o Careta!
    George Machado Tabatinga, com a colaboração do amigo do Careta
 
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